9 de outubro de 2019

Visita de Bolsonaro à China pode gerar estremecimento das relações comerciais com os Estados Unidos

Brasília –  O presidente Jair Bolsonaro visitará a China de 24 a 26 de outubro e dependendo da maneira como vier a tratar dois temas relevantes e ao mesmo tempo delicados no relacionamento com Pequim, poderá causar embaraços às relações com os Estados Unidos. As autoridades chinesas esperam que o mandatário chinês se pronuncie formalmente sobre a adesão do Brasil ao megaprojeto “Um Cinturão, uma Rota” e, ao mesmo tempo, anuncie que não vai vetar a entrada no país da megaempresa Huawei na implantação da tecnologia 5G no Brasil.

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Se isso de fato acontecer, conforme sublinha Ângela Maria dos Santos, analista de Comércio Exterior da Thomson Reuters, poder´haver um estremecimento das relações comerciais do Brasil com os Estados Unidos, num momento em que brasileiros e americanos iniciam negociações visando um possível acordo de liberalização do comércio bilateral.

A especialista em da Thomson Reuters fez essa afirmação no contexto de uma análise mais abrangente sobre o crescimento da presença chinesa na América Latina e mais precisamente sobre a ocupação pelos chineses dos espaços tradicionalmente pertencentes ao Brasil como maior parceiro comercial dos países latino-americanos.

Ao ser questionada sobre quais reflexos a participação da América Latina no “Um Cinturão, uma Rota” poderá ter nas relações entre a China e a  América Latina, Angela Maria dos Santos afirmou que, “do ponto de vista chinês, os países latino-americanos e caribenhos fazem parte da extensão natural da Rota Marítima da Seda. E, ainda que não geograficamente falando, são participantes indispensáveis na cooperação internacional do “Cinturão e Rota”, quando o assunto é comércio e investimentos. Porém, apesar de a China ser um parceiro importante dos países latinos, essa deve ser uma decisão cautelosa porque poderá ter reflexos positivos, mas também negativos”.

De acordo com a especialista, “de positivo, o rápido avanço em setores como tecnologia, infraestrutura, logística, automotivo e energia, entre muitos  outros. Os reflexos negativos, que precisam ser avaliados, giram em torno principalmente da possibilidade de endividamento com os chineses, bem como a insegurança quanto à concretização das  infraestrutura e logística. Por fim,  outro ponto que deverá ser analisado com cautela seria a probabilidade de um estremecimento nas relações comerciais com os Estados Unidos, o que seria preocupante para os países latinos, e em especial para o Brasil, que encontra-se no início das negociações para um possível acordo de liberalização comercial com os americanos”.

A pouco mais de duas semanas da visita a Pequim, o presidente Jair Bolsonaro ainda não se pronunciou formalmente sobre essas questões. Mas a posição do governo foi expressa pelo vice-presidente Hamilton Mourão que, em entrevistas recentes, fez comentários sobre a adesão brasileira ao “Um Cinturão, uma Rota” e sobre a entrada da Huawei no Brasil.

Em visita à China, no dia 20 de maio, Mourão sinalizou que o Brasil pode vir a aderir à também chamada “Nova Rota da Seda”, iniciativa trilionária (em dólares) do governo Xi Jinping para retomar o espírito de trocas comerciais do antigo trajeto que unia Oriente e Ocidente na Idade Média. Trata-se de um megaprojeto de infraestrutura que vai interligar portos, ferrovias, rodovias, aeroportos e telecomunicações para facilitar e incrementar o comércio entre a China e o resto do mundo.

Poucas semanas depois, o vice-presidente voltou a falar sobre um outro tema delicado nas relações entre o Brasil e a China e que envolve diretamente interesses globais dos Estados Unidos: a autorização para a entrada da Huawei no Brasil com as tecnologias para a quinta geração (5G) de telefonia móvel. Mourão reconheceu que o tema foi tratado em março passado em conversa dos presidentes Jair Bolsonaro e Donald Trump, por ocasião da visita do mandatário brasileiro a Washington.

Hamilton Mourão disse ainda que o governo brasileiro não pretende vetar a entrada da Huawei pois não acredita que nenhum país vai receber a tecnologia a ser instalada pela companhia chinesa se ficar preocupado com o fato de que os dados em poder da Huawei vierem a pertencer também ao governo de Pequim. “Aqui não”, disse categórico o vice-presidente ao comentar a possibilidade de o Brasil vetar as tecnologias para a quinta geração de telefonia móvel.

Esses dois temas espinhosos devem ocupar lugar de destaque na visita de Bolsonaro a Pequim. E, ao que tudo indica, durante a visita os dirigentes chineses vão tentar obter compromissos formais do Brasil em relação ao programa “Um Cinturão, uma Rota” e também no tocante à entrada da Huawei no país. No mais, procurarão ter a garantia de que o Brasil se manterá neutro na cada vez mais intensa e preocupante guerra comercial decretada pelo governo Trump contra a China.

9 de outubro de 2019

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